O levantamento,
realizado com paixão minuciosa, ilustra construções,
realizadas entre os anos trinta e quarenta, homogéneas, correctas,
embora carentes de elementos arquitectónicos de qualidade. O
antigo Bairro Militar encontra-se em elevadas condições
de degradação e prenhe de problemas sociais, mas constitui
um dos pontos de referência carismático na imagem desta
parte da cidade.
Depois
de ter sondado o panorama linguístico e técnico da arquitectura,
evidenciam-se duas perspectivas distintas: de um lado a proposta dirigida
á conservação, segundo os princípios de
um restauro urbanístico, ou, do outro lado, a hipótese
de substituição das funções e das construções
existentes a fim de valorizar as características de centralidade
da área.
Prefácio
A história da arquitectura moçambicana faz-se, como a
de qualquer outra cultura ou região, através da acumulação
das realizações que os diversos estratos sociais materializam
no território e no tecido urbano.
Em Moçambique o urbano e o rural são dois países
com evoluções próprias, paralelas ou confluentes,
mas ainda muito distantes (ou mesmo em distanciamento progressivo...)
em termos da expressão de formas diversas de habitar. O
camponês, herdeiro das tradições técnicas
ancestrais que lhe permitem viver em equilíbrio com o meio ambiente,
vai, paulatinamente, integrando nos seus saberes e necessidades outras
exigências e outras possibilidades. Mas está ainda longe
das mutações culturais que, um dia, o farão urbanizado.
A cidade,
como fenómeno generalizado, como sede da administração
pública, é um fenómeno recente na nossa parte de
África. Podemos mesmo arriscar que é um fenómeno
de importação e, no nosso caso, de importação
colonial.
A cidade
exige uma arquitectura diversa da aldeia e das zonas rurais. Diversa
na sua tecnologia, diversa nas formas de viver e de habitar, diversa
nas regras de associação e de infra estruturação,
diversa até na longevidade e valores que representa.
A arquitectura é assim, também, uma das formas de distinguir
a cidade do campo. A
compreensão da evolução das formas arquitectónicas,
e das suas associações em conjuntos urbanos; o estudo
das condições de financiamento, projectação
e construção das obras são matérias essenciais
à construção de uma cultura arquitectónica
nacional, esclarecida e consciente dos seus factores de génese.
A nossa
Faculdade, primeiro, e até hoje, único centro de polarização
do debate e da construção de uma historiografia da arquitectura
moçambicana, tem-se mantido atenta ao significado dos testemunhos
das várias intervenções urbanísticas e realizações
arquitectónicas em todo o território nacional, quer através
da sua actividade didáctica, quer através de investigação,
aliás duas actividades íntima e coerentemente ligadas
como o prova o trabalho que agora apresentamos ao público. É
pois nessa perspectiva que deve ser apreciado – como o resultado
de um trabalho de preparação dos estudantes para uma maior
sensibilidade ao mundo arquitectónico que os envolve, à
compreensão das suas razões históricas, sociais,
culturais e tecnológicas e da sua inserção no evoluir
das formas e dos espaços da arquitectura urbana moçambicana.
Conjuntamente
com o trabalho já feito, e publicado, em Lichinga e Inhambane,
e com outros trabalhos em curso, vai a Faculdade de Arquitectura e Planeamento
Físico construindo a sua própria base de conhecimento
da realidade sobre a qual devem os alunos, e professores, construir
uma tradição enriquecida de uma urbanística e de
uma arquitectura cada vez mais humanas, inteligentes, ecosustentáveis
e económicas.
Assim saibamos
nós, e eles, aprender com o que vimos, analisamos e registamos,
para quem depois de nós vier.
José
Forjaz
13 de Setembro de 2003