Prefácio

Assim se aprende como as árvores ganham a forma das casas. Não é o inverso, não, o que acontece. Porque as casas estão tão esgotadas pela exaustão que já não conseguem abrigar mais nada. Deixam-se levar pelo tempo, deixam-se varrer pelo vento das monções, deixam-se embalar no conforto pastoso das tardes de lua cheia. E dormem um sono displicente. E vão-se desprendendo das recordações do bulício que habitava os seus quintais.

Pouca gente habita aquilo que é comum chamar-se centro histórico, “conjunto monumental” ou, moçambicanamente, bairro de cimento. Quem lhe define agora a urbanidade é a natureza exuberante. Ela vai-se apoderando de todas as pedras como coisa ávida de recuperar o que perdera. As pedras passaram a ter vida. Invade-as uma nova azáfama. Primeiro, é um rebento insignificante que desponta na dobra de uma cornija. Depois é a raiz a invadir devagar os vãos, e as fissuras invisíveis de uma parede. A tomá-la como uma constritora a engolir a presa. E assim, despertada de gulodice, a planta deixa-se estar, digerindo a forma e adaptando-se-lhe como se sempre tivesse sido a sua. A árvore já não o é apenas. É uma parede. Ou melhor: as paredes viram planta. E acordam nas entranhas de um outro dono. E vivem de novo. Não porque haja gente que as habite.

Vivem de novo porque hoje são as paredes que habitam nas plantas. Vivem de novo porque a memória dos antigos donos, as gargalhadas das crianças, os protestos silenciosos dos escravos, o roçar das rodas dos riquexós sobre o chão claro do coral brunido, tudo isso foi digerido pelas raízes hiantes da avidez do verde.
Até se poderia dizer, com a propriedade típica da gíria arquitectónica, que as plantas das casas se transformaram nas casas das plantas. As figueiras bravas são hoje os principais habitantes do bairro de cimento, como pomposamente se chama à zona outrora habitada pelos colonos e assimilados.

Poder-se-ia dizer que os donos das casas do Ibo estão mais ricos. Não porque as suas casas valham mais com o advento do turismo naquelas paragens. Estão mais ricos porque as suas paredes, as suas varandas, os seus alpendres, os seus quintais abandonados e até os sonhos oitocentistas de urbe “nobre” esverdearam. É a esperança que se recupera? Ah... esse verde verdadeiro a substituir o esplendor perdido, a retomar o poder que apenas a natureza pode conferir. As decorações coloridas das salas escancaradas da mansão baniane oferecem-se aos passantes. As portas abrem-se para a vegetação que aprimora as suas cores no interior das salões devassados.
As janelas equipam-se de persianas verticais de raízes aéreas.

Os telhados, descobertos de telhas, aprendem desenhos estranhos. Desdobram-se em novas formas e fungos que só a humidade em demasia consegue ensinar. Até ruírem definitivamente. Mas há uma história de cumplicidade antiga entre a morte dos donos e o desmoronamento das suas casas. Ainda hoje esta história se repete com testemunhos vivos. Ao perguntar-lhe se gostaria de mudar-se para o bairro de cimento, Maulana Rajabo, morador no quarteirão Pancadi no bairro Cumuamba, na periferia da vila de pedra e cal, disse-me que ninguém ocupa uma casa que não é sua, mesmo que o proprietário tenha falecido. Se não houver herdeiro conhecido a casa morre também.

À vista de todos, com a compreensão de toda a comunidade. Serão as ruínas também o resultado estranho de uma prática cultural? A do profundo respeito pela propriedade de outrem? De qualquer modo, e enquanto não desaparecerem completamente, os escombros transportam consigo a lembrança do N´zungo Berry, da Nana Luísa, do muenhe Maulana, da Sá Teresinha ou do João Nchaga. Cada um com a sua história e uma lembrança que se prolongam até que o tempo não mais necessite dela. As novas gerações construirão então de raiz as suas próprias e futuras ruínas de recordações, capazes de serem lidas por aqueles que tiverem sido seus contemporâneos. Assim se repetirão os Ibo(s) pelos tempos, sem nunca se reproduzirem numa forma demasiado cristalizada.


Seremos outros e será outra a paisagem construída. Todos e tudo: as gentes, as técnicas, os materiais, os gostos e as aspirações. É que, por exemplo, dentre os materiais ainda actuais, o mangal, o coral, as conchas, a folha de coqueiro e os caules resinosos de N´tamba são para proteger; a durabilidade tem de se atingir com outros esforços; e as telhas de Marselha já não regressarão como lastro dos navios negreiros. As placas de madrepérola das bandeiras das janelas nunca mais modelarão os interiores com o seu leitoso brilho e nem a mica, que os franceses buscavam1, sobrará no solo das ruínas. E o vermelho a pincelar de onde em onde a linha da costa, vislumbrada ao longe, talvez apenas permaneça nas flores das acácias rubras. Não são apenas as raízes que se insinuam pelas aberturas desabitadas, desencaixilhadas, vazias. Afinal não são apenas as paredes que se racham deixando o céu brilhar por entre os velhos paramentos agigantados de vazio... É um tempo e um Homem a passar num murmúrio imperceptível, dia após dia, ano após ano.


Para além dos habituais ciclones das monções, parece que também os sismos talvez tenham sido, ao longo da história, um elemento natural de transformação da paisagem da vila. Na destruição seguida de reconstrução teimosa. Eles conduziram a mão de um dos alunos que participou neste trabalho, o Eusébio, quando em Julho de 2002 traçava o rigor da linha que o levantamento das casas lhe exigiam. Em segundos tremeu o pulso, suspendeu-se o tempo, abriu-se um tremor de espanto, desfez-se a racionalidade ciosa do desenhista. As fissuras impressas pelos sismos nas paredes terão agora uma réplica objectiva estampada numa folha transparente de papel. Já aprendera a não correr em dia de ciclone durante a minha infância. Ou melhor, não corri, voei. Voa-se com o vento forte. Chega-se mais depressa a um destino nem sempre desejado. Voei sim ao dirigir-me à missa. Milagre? Não. Simples rescaldo de uma das fortes rabanadas de vento comuns trazidos pela monção de Nordeste. E adiantei dez passos a caminho da igreja. Mas agora era o sismo a desencorajar-nos de sonhar sem fundamento. E desfez-se o desenho. Como se fosse necessário traçar uma curva mais sustentada para as mais antigas reminiscências infantis. Não vai durar muito este espectáculo de interacção entre a presença da história em recomposição – também com a natureza a reinventá-la – e o dealbar da sua redescoberta para o turismo cultural, para o seu estudo, para a sua reapropriação em contextos novos pelos seus próprios habitantes e por todos os outros. Por isso decidimos fazer e dedicar este prefácio à vida das ruínas. Dificilmente se repetirá este momento. Felizmente. Há muitas apetências a abrirem o horizonte.


E foi assim que nos reencontramos a buscar uma inflexão específica para um caminho novo de procuras. Um caminho novo para a ilha do Ibo? De preferência aquele que potencie a renovação do velho centro edificado, para que sirva a gente que o rodeou e que hoje lhe desenha uma nova alma mais pacificada e sirva também a quem queira usufruir os seus prazeres. Um simples carreiro para o projecto de vida de uma vila que o tempo, o ambiente e também o povo queiram como seu. Um barco antigo para um novo tempo azul? A técnica será aquela que a natureza quiser. A técnica será aquela que a história já há tanto tempo desvendara.

Há sempre uma nova vila para cada tempo. Depois de sucessivas invasões, ciclones, sismos e razias; depois de uma mão cheia de escravos a alimentar-lhe a vaidade, uma nova vila. Ciclicamente um renascer de escombros. Uma fénix índica a pairar sobre cada futuro desenhado nas cinzas da oportunidade ou da cobiça. E foi também assim que desapareceu o choro pelas ruínas a abrirem sem descanso o horizonte entre o edificado da vila e nos pusemos a trabalhar para conhecê-la melhor e, eventualmente, propor uma nova vocação que sustente a sua revivificação, reabilitação e restauro. Para nos darmos a nós, e a outros de mais longe, atmosferas e motivos de projectação um pouco mais despidos de impessoalidade.