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Apresentação
Apresentar
significa conhecer. Apresentar significa respeitar quem se apresenta
e a quem se apresenta.
Eu não conheço o Ibo. Isto é, nunca lá vivi.
A última vez que lá estive foi há mais de vinte
anos, e muito brevemente.
E no entanto respeito esse lugar, e no entanto parece-me conhecê-lo
tão bem. Talvez por ter a sorte de ouvir, dos amigos autores
deste livro e de tantos outros, um relato tão vivo e tão
intensamente emocionado que lhe sinto os aromas e os calores, a tristeza
e a fatalidade, a história e a sensualidade, a fadiga e …
a esperança.
Desta
costa do Indico conheço alguns milhares de quilómetros,
milhões de coqueiros e triliões de grãos de areia
e de estrelas. Descasquei-me em muitos dos seus sóis. Aprendi
como é difícil resistir-lhe ao encanto que nos propõe
a miragem da mais nua simplicidade, do sol, da areia e do peixe, do
vento e da chuva quente, das caras fantásticas do msiro, do Islão
tolerante, e cúmplice das mais humanas fraquezas, e dum cristianismo
benevolentemente tolerado.
Daí que tenha eu esta ilusão de que, afinal, também
quase conheço este Ibo mágico que não deixa ninguém
menos que enrodilhado nos seus próprios sonhos esquecidos.
Mas talvez não seja o Ibo que me pedem para apresentar mas sim
a apresentação do Ibo e os seus apresentadores, pois que,
neste estudo, o Ibo nos é muito bem apresentado.
Afinal
já era de tempo de que algum nosso cientista e analista nos desse
a lição que talvez tantos sabemos mas não sabemos
transmitir: a lição de saber ver o que neste país
temos, e de saber apresentá-lo a nós próprios e
aos outros.
É verdade que tivemos que aprender esta lição.
É verdade que saber ver exige método e disciplina mental.
Exige mesmo, tantas vezes, que a razão se sobreponha à
emoção, tão tentadora e encandeante que nos leva
a intuições fáceis e a superficiais explicações.
Grande
virtude essa do Carrilho, a que os outros autores não ficaram
imunes, a de dar perfume à ciência e estabelecer-lhe as
bases poéticas sem as quais a verdade é apenas uma construção
mental. É, sempre sua, esta virtude de explicar a forma pelo
homem e o homem pelo sentimento para que, diz ele: “a história
das gentes e das coisas impregnem os processos do saber”.
Muito me orgulho de ser “director” desta gente capaz e completa,
que vai juntando a paciência a outras virtudes mais quantificáveis
e académicas, sabendo esperar e aproveitar as oportunidades para
fazer frutificar um trabalho de pura devoção.
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Ao
fim de muitos anos de tentar dirigir esta máquina de pensar, que
é a Faculdade de Arquitectura e de Planeamento Físico, são
trabalhos como este que me dão alguma certeza de que, afinal, valeu
a pena insistir na criação de uma tradição
de pensamento, de uma atitude mental e de um espírito de constante
curiosidade e intransigência intelectual e científica.
Mas, e sobretudo, um espírito aberto à universalidade do
saber que reconhece sem paternalismos as sofridas e sofisticadas ciências
da sobrevivência e dos conhecimentos que se aprendem no leite da
mãe, no exemplo do pai e no esforço da comunidade.
Só com estas armas mentais e com estes instrumentos emocionais
se pode fazer justiça a uma cultura que não se encaixa nos
códigos da escrita, da fórmula abstracta e da erudição
livresca ou literária.
Com cada
trabalho publicado vão-se elevando os níveis de referência
intelectual da nossa colectânea.
O Carrilho, o Pires, o Cani e o Lage, a que se juntou a colaboração
preciosa da visão da história do António Sopa, são
parte importante desta fraternidade mental que, há tantos anos,
procuramos construir à volta da ideia de que arrumar pessoas na
paisagem e na cidade é uma tarefa muito nobre, apaixonante e de
grande responsabilidade.
Não tem sido fácil este percurso, onde a distracção
é tão frequente e a confusão dos objectivos mais
profundos nos aparece tantas vezes mascarada com a capa de uma pretensa
liberdade do espírito ou do imaginário feita, as mais das
vezes, do móbil mais mesquinho da conquista duma notoriedade irresponsável
em relação aos valores mais essenciais da justiça
social e do equilíbrio ambiental.
Tem sido
mesmo uma luta solitária e sem glória.
Por isso
mais importante é que sejam produzidos e publicados trabalhos do
pensamento e da emoção como este sobre o Ibo.
Sobre os méritos científicos e metodológicos da obra
temos o testemunho importante do Professor Salvatore Dierna que, com a
maior paixão e fraternal empenho, nos acompanha nesta campanha
de inventar o quadro e a ideia de uma arquitectura moçambicana.
A ele, como
a muitos outros dos nossos colegas italianos, ficamos a dever uma grande
parte do suporte e do apoio, indispensáveis durante todos estes
anos de luta pela qualidade do pensamento e pela intransigência
intelectual, como a única via de criação daquela
ideia, que este livro, tão justamente, exprime e condensa.
A todos, por isso, os nossos parabéns e os nossos agradecimentos.
José
Forjaz.
30 de Novembro de 2004. |
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